fichamento não-objeto

 Fichamento teoria do não-objeto 

A "Teoria do Não-Objeto", proposta por Ferreira Gullar, não visa designar um objeto negativo ou o oposto dos objetos materiais, mas sim um objeto especial. Este conceito ambiciona realizar uma síntese de experiências sensoriais e mentais, apresentando-se como um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se oferece à percepção sem deixar rasto, sendo uma pura aparência. O não-objeto se distingue da coisa material — o objeto no sentido cotidiano (borracha, lápis, pera) — que se esgota nas referências de uso e sentido. Em contraste, o não-objeto não se esgota nessas referências pois não se insere na condição do útil e da designação verbal.

A formulação dessa teoria advém da crise e da morte da pintura figurativa, um processo iniciado quando os impressionistas buscavam a luz natural, dissolvendo o objeto em manchas de cor e transferindo a fidelidade do mundo natural da objetivação para a impressão. Subsequentemente, o Cubismo arrancou o objeto de sua condição natural e o esvaziou de sua opacidade invencível, transformando-o em formas ideais. Essa luta contra o objeto representado atingiu seu ápice com Mondrian e Malevitch, que eliminaram os vestígios da figura, da cor e do espaço de representação, sobrando a tela em branco. Para Mondrian, a tela como presença material tornou-se o novo objeto da pintura, que ele tentava organizar e dar transcendência.

Ao longo desse percurso, a arte abandonou a moldura e a base, elementos que antes inseriram o espaço fictício da obra no mundo real. Essa eliminação é vista como um esforço para libertar o artista do quadro convencional da cultura, visando realizar a obra no espaço real mesmo e conferir a esse espaço uma significação e transcendência através da aparição do não-objeto. O uso de ready-mades por Duchamp e as experiências de colagem de materiais do real no quadro por dadaístas já indicavam a necessidade de substituir a ficção pela realidade.

Gullar traça uma distinção crucial entre o objeto real, o quase-objeto e o não-objeto. O quase-objeto, como uma natureza morta, é uma representação de um objeto real, sendo um objeto fictício. Embora se desprenda da condição de objeto, ele não alcança a de não-objeto, e a significação que revela estava imanente no objeto real. Por outro lado, o não-objeto é uma apresentação, não representando nada e fundando em si mesmo sua significação. Diferentemente da pintura abstrata, que ainda mantém a oposição figura-fundo e utiliza um fundo metafórico , o não-objeto insere-se diretamente no espaço real, o mundo, e, por não ter o problema da representação, o dualismo figura-fundo não se coloca.

A arte contemporânea, ao convergir para este ponto, afasta-se cada vez mais de suas origens, e as denominações "pintura" e "escultura" já não possuem propriedade para descrever estes objetos especiais. O não-objeto é o resultado da busca pela experiência primeira do mundo, um esforço para precipitar diretamente essa experiência fora dos quadros conceituados da arte.

Finalmente, o não-objeto demanda a participação do espectador ou leitor. A mera contemplação não basta, e o espectador é solicitado a usar o não-objeto, passando à ação .O não-objeto se apresenta como inconcluso e oferece os meios para ser concluído, sendo o espectador a condição mesma de seu fazer-se. A ação do espectador não consome a obra, mas a enriquece, incorporando seu tempo à significação da obra


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