fichamento Domínio Publico parte A - Hertzberger
Dominio Publico - Parte A
A Teoria do Não-Objeto, apresentada por Ferreira Gullar, define o termo como um objeto especial , e não um objeto negativo ou o oposto dos objetos materiais. Este não-objeto, que não é um antiobjeto , busca realizar a síntese de experiências sensoriais e mentais. Ele é concebido como um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se dá à percepção sem deixar rasto , sendo, em essência, uma pura aparência.
Essa formulação teórica está intrinsecamente ligada à crise da arte e à Morte da Pintura. Gullar argumenta que a pintura figurativa começou a morrer quando os impressionistas, ao buscarem apreender o objeto imerso na luz natural, fizeram com que os objetos se dissolvessem em manchas de cor nos quadros de Monet. A fidelidade ao mundo natural se transferiu para a impressão , e a coerência da expressão pictórica passou a se limitar à coerência interna do quadro.
O objeto representado progressivamente perdeu significação, enquanto o quadro, como objeto, ganhava importância. O Cubismo, ao arrancar o objeto de sua condição natural e transformá-lo em cubos, imprimiu-lhe uma natureza ideal, esvaziando-o da opacidade invencível que caracteriza a coisa. A eliminação do objeto continuou com Mondrian e Malevitch. Mondrian, ao perceber o sentido revolucionário do Cubismo, deu-lhe continuidade de forma radical, limpando a tela de todos os vestígios do objeto, não apenas sua figura, mas também a cor, a matéria e o espaço de representação, restando-lhe a tela em branco. Com a eliminação do objeto representado, a tela como presença material torna-se o novo objeto da pintura , e a luta contra o objeto persiste, buscando uma transcendência que a subtrai à obscuridade do objeto material.
A culminação dessa luta contra o objeto na pintura e na escultura levou à perda de sentido da moldura e da base. O artista deixou de buscar erguer um espaço metafórico e passou a realizar a obra no espaço real. A intenção de substituir a ficção pela realidade foi visível no uso de papel-colado e areia dentro do quadro , e no Merzbau de Kurt Schwitters, feito com objetos achados na rua. No entanto, a técnica do ready-made (como o urinol-fonte de Marcel Duchamp) foi limitada, pois a obscuridade característica da coisa volta a envolver a obra, reconquistando-a para o nível comum, de modo que, nesse front, os artistas foram batidos pelo objeto.
Em contraste, o caminho da vanguarda russa (Tatlin, Rodchenko, Malevitch) mostrou-se mais profundo, indicando uma evolução coerente do espaço representado para o espaço real, e das formas representadas para as formas criadas. Tanto a pintura quanto a escultura, ao se libertarem da representação, figura, base e massa, convergem para um ponto comum , tornando-se objetos especiais — não-objetos — para os quais as denominações tradicionais de pintura e escultura já não possuem muita propriedade. Romper a moldura e eliminar a base não são questões meramente técnicas, mas um esforço para libertar-se do quadro convencional da cultura

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